quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Kentucky Bourbon Trail - a mágica experiência do Bourbon

So many bourbons, so little time

Quanto eu tinha mais ou menos uns 13 anos, no Shopping Market Place, em São Paulo, acompanhado de dois dos meus melhores amigos (até hoje), tive minha primeira experiência com álcool na vida. Talvez não tenha sido a primeira vez que coloquei uma bebida alcóolica na vida, mas aquele momento, sem os meus pais presentes, me marcou. A bebida em questão foi uma cerveja - que, diga-se, jamais deveria ter sido vendida para nós pela loja - daquelas edições com bandeiras de clube. Curiosamente, não me lembro qual era o time em questão. Mas foi uma grande aventura aquele breve momento com as latinhas de cerveja, subvertendo a sociedade, desafiando o mundo e voltando pra casa após os pais nos buscarem.

Esse pequeno nariz de cera foi apenas para falar do tema: álcool. A cerveja foi uma forma de se iniciar, o vinho também teve seu espaço, os drinks ganharam destaque com mojitos e afins e, pouco depois, comecei a conhecer o mundo do Bourbon. Primeiro Jim Beam, depois Wild Turkey, MAker's Mark e por aí vai. Algumas regras básicas sobre bourbon:

1 - Todo bourbon é whisky, mas nem todo whisky é bourbon: para que um whisky receba a denominação de 'bourbon', ele tem que obrigatoriamente ser feito nos Estados Unidos (em qualquer estado de lá), e ter pelo menos 51% milho. Sim, há outras etapas, mas essas duas são as essenciais.

2 - Jack Daniel's não é bourbon: dê um google em anúncios de Jack e você vai eventualmente cair em um que fala algo do tipo "it's not bourbon, it's not scotch. It's Jack". Resumidamente também, o Jack Daniel's não é bourbon por um simples motivo: ele não segue as regrinhas que citei no primeiro item. Pq, após o líquido ter sido preparado, ele passa por um processo de filtragem em carvões de maple tree, uma árvore comum por lá. O esquema é gota por gota, caindo em imensos tanques de carvão, para depois irem pro barril. Por ter adicionado esse processo, o Jack não pode, pelas regras, ser chamado de bourbon. Logo, eles se caracterizam como um "Tennessee Whiskey" e pronto.

Como os americanos são, no perdão da palavra, foda na questão de valorizar suas origens e converter isso em bugigangas a serem vendidas em lojinhas, eles criaram por lá um circuito que passa pelas principais distilarias de bourbon. É esse o tal do Kentucky Bourbon Trail, que você pode saber mais aqui: http://kybourbontrail.com/. Existe até um passaporte para essa coisa, tipo um passaporte mesmo, em que você carimba todas as 8 destilarias que passou para ganhar uma camiseta.

Eu me pergunto se fariam algo similar na Serra Gaúcha na rota dos vinhos

Na minha passagem pela região, não consegui ir em todas. Além do Jack (que, como já foi explicado, não é bourbon - e nem fica no Kentucky), passei por três destilarias: Jim Beam (Clermon), Evan Williams (Louisville) e Maker's Mark (Loretto). Pq não fui nas outras? Pq o propósito da viagem era chegar até Nashville saindo de Ann Arbor (Detroit), não fazer o bourbon trail inteiro. Ou seja, otimizamos o que mais ou menos estava na rota e, quem sabe no futuro, fazemos as que faltam para levar nosso brinde.

Jim Beam e Evan Williams permitem que você compre seus tickets online e agende o horário da visita. No caso do Evan Williams, estava vazio e o tour foi tranquilo. No caso do Jim Beam, a coisa é maior e isso é altamente recomendado (claro, tudo pode variar muito conforme o dia da semana e época do ano. No meu caso, estive lá em setembro de 2014 em um dia comum da semana).

Maker's Mark e Jack Daniel's não exigem horário marcado. É chegar lá e pegar o próximo grupo. O Jack, aliás, nem cobra pelo tour básico (os outros cobram em média 10 dólares). Há, claro, o tour premium do Jack, que é mais longo detalhado e inclui degustação de três bebidas, por um preço também de 10 ou 12 dólares ( eu fiz esse e super recomendo).

Não vou entrar em detalhes aqui sobre o que tem em cada um deles, acho que é mais legal cada um descobrir por conta própria (leia-se 'estou sem saco de digitar tudo isso'). Para amantes de bourbon (eu sou um apreciador nível 3, mas não chegou a ser um amante), a viagem é o máximo. As histórias de como as bebidas foram criadas, o marketing precursor da época, as dificuldades no período da Lei Seca nos EUA, tudo isso vale para qualquer um, na verdade. No Jack Daniel (isso mesmo, sem o apóstrofe), você passa pela sala original em que o próprio Jack fazia negócios e vê inclusive o infame cofre que ele chutou e, a longo prazo, provocou sua estúpida e prematura morte. Aliás, na própria cidade do Jack, Lynchburg, não é permitido beber. Uma contradição absurda, mas eu mesmo levei uma 'carcada' de um vendedor apenas pq estava com um copinho de degustação andando pela sede.

E, claro, as lojinhas. Ah, as lojinhas. Em todos os casos, prepare-se para ver tudo que quiser enrolado com bourbon. Barris usados, velas, pen drives, camisetas, mel, chaveiros, bonés, charutos, etc etc. O céu é o limite. A loja do Evan Williams, que foi a primeira destilaria que passamos, é um barraco perto do que vimos no Jim Beam. E a do Jim Beam é uma banca de camelô se comparada com a do Jack Daniel's, que é praticamente a cidade toda (não se empolgue, é um quarteirão) de lojas.

Apenas uma entre as várias lojinhas de Jack Daniel's
Como falei, nossa viagem não era especificamente para fazer o KBT inteiramente, então não posso falar pelas demais destilarias. Ainda tive a oportunidade de ganhar um Wild Turkey Kentucky Spirit de uma amiga que trabalha para eles por lá, mas não os visitei (ficam em Lexington). Mas, a não ser que você seja um fã absolutamente hardcore de bourbon (e queira ganhar a camiseta com o passaporte 100% carimbado), ir em duas ou três já ajuda bem. Depois da segunda, você já começa a achar que está vendo mais do mesmo, mais ou menos como quando se visita vinícolas na sequência...

Isso não quer dizer, claro, que eu não pretenda voltar pra lá algum dia. Afinal, como diz o Jim Beam, "come as friend, leave as family". Logo, acho que tudo bem eu bater na porta deles um dia de novo!



sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Trinta dias sem beber

Este mês, inspirado em uma campanha supostamente da Austrália chamada "Dry July", resolvi passar agosto inteiro a seco. Sem álcool de qualquer espécie. Afinal, agosto já é um mês meio parado - sem feriados, sem muitos amigos celebrando aniversários. Não deve ser difícil, certo?

Aqui estou, no dia 15 de agosto, sofrendo como nunca. Percebe-se então que não é da bebedeira que se sente falta - aliás, é raro pra mim beber até cair. Sente-se falta da bebida como instrumento de convivência social. Como lubrificante do dia. Hoje, precisamente, sexta-feira, o pub aqui do outro lado da rua está mais atrativo do que nunca. Um dia, ou melhor, uma semana de muito stress, muito trabalho, cansaço, brigas, negociações de todos os tipos. Uma cerveja gelada cairía como um torpor para a alma. Talvez duas, quem sabe três. Mas dificilmente mais que isso.

É, este mês está sendo mais longo do que eu jamais imaginei.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Eu já desisti de São Paulo


As pessoas adoram dizer por aí que São Paulo é uma relação de amor e ódio. A Folha, de tempos em tempos, publica pesquisas sobre esse envolvimento do paulistano com a cidade. Não vou ser hipócrita aqui, apenas honesto. Não odeio 100% São Paulo, mas chega muito perto disso. Infelizmente, fiz minha vida nessa cidade que cheira mal e, hoje, fica difícil sair e deixar tudo - e todos - pra trás. Sem demagogia? Se odeio tanto São Paulo, o que ainda faço aqui? Me falta coragem, oportunidade, algo que consiga me mover.  A verdade é essa. Mas isso não esconde o que verdadeiramente sinto. Aliás, muito do que falo aqui vale para o Brasil.

São Paulo é terrível. É uma cidade feia. Como falei, cheira mal. Mas o que mais incomoda em São Paulo não é culpa apenas de São Paulo. É culpa do Brasil também. É a demora com que as coisas acontecem. Tudo aqui leva anos para ficar pronto. Em alguns casos, décadas. Veja o caso do Largo da Batata. Desde que sou criança aquele trecho da cidade está em obras. Agora, parece que vai acabar. Lá se vão vinte anos!

Irrita a falta de planejamento da cidade. Como as coisas parecem acontecer de qualquer jeito. É fato que hoje as autoridades parecem se preocupar um pouco mais com isso. Mas o que já foi feito, dificilmente dá pra remediar. Tome Paraisópolis como exemplo. Uma das maiores favelas da cidade (já ouvi que é a maior) no meio de um bairro de classe média alta. Violência por lá é comum. Coisa do cotidiano. Trânsito, também. Porque, com o aumento da violência, as casas somem e dão lugar a prédios. E, onde antes havia quatro ou cinco carros, há agora 300 veículos. E a falta de planejamento salta à vista. O Morumbi é um típico exemplo de como a cidade não se preparou minimamente para crescer.

A Avenida Giovanni Gronchi está saturada. Há muitos e muitos anos. As ruas paralelas, usadas como vias de escape, também. A Giovanni é rigorosamente é a mesma desde que foi construída. Na ocasião, meados dos anos 1950, o Morumbi era tão longe que NINGUÉM da Prefeitura pensou, em algum momento, que aquele bairro poderia um dia se tornar populoso. E isso irrita demais. Em Buenos Aires, na nossa vizinha Argentina, isso não acontece. As avenidas são largas. Oito, nove, 10 faixas de cada lado da avenida. Qual a dificuldade para que São Paulo possa fazer o mesmo? Sério, é tão complicado assim? Somos menos inteligentes que os argentinos (e não estou colocando aqui nenhuma rivalidade, é apenas uma pergunta retórica)?

Talvez o maior símbolo da falta de planejamento de uma cidade, no maior sentido da palavra, sejam os postes. Parte do nosso dia dia, das nossas vistas, eles são ignorados pela maioria das pessoas. Mas estão ali, como troféus do descaso, como lembranças incessantes de que, nesta cidade, pouco ou quase nada se faz - ou fez - para prever o futuro.

Os postes de São Paulo não são postes comuns. Como diz um amigo meu, são verdadeiras usinas elétricas. Dezenas de fios emaranhados, jogados, se entrelaçam correndo pelas vias, ligados em casas, prédios, favelas, misturados sobre árvores que ficam em calçadas esburacadas, apertadas, com camelôs, lixo na rua e cidadãos que não respeitam o trânsito.

Aqueles postes fazem mais do que deixar a cidade feia, mais vulnerável a quedas de luz e acidentes com pipas ou afins. Eles fazem a gente lembrar, todo dia, em nosso caminho para o trabalho, que esta cidade provavelmente nunca terá jeito. O prefeito Haddad falou, este ano, que quer remover a fiação da cidade. Isso vai custar milhões. É louvável que o prefeito fale isso, e eu torço fervorosamente para que ele consiga realizar a promessa. Mas não conseguirá. Porque em São Paulo (e no Brasil), tudo demora. E quatro anos (ou oito) é muito pouco para ele resolver esse problema. Até porque há outros problemas, muito maiores e mais significantes do que enterrar fios de poste.

São Paulo é um poço sem fim de problemas. E parece que todos eles emperram em uma máquina velha, sem manutenção, que é o sistema. O sistema tributário. Com preços ridículos, mescla de impostos abusivos e lucros exagerados. O sistema de esgoto. Com rios que fedem e envergonham o paulistano e bairros ricos que despejam seus dejetos em qualquer lugar. O sistema de trânsito, que tem obras superfaturadas que já nascem velhas e motociclistas que não sabem o que é respeito. O sistema de segurança, em que 37 estupros por dia passam diante dos olhos em notícias no elevador e quase não causam espanto. Ou que ir a um restaurante é um risco de assalto duplo - seja pela casa, com seus preços que estão entre os mais altos do mundo -, ou pelos bandidos, que fazem arrastão livremente.

Eu já desisti de São Paulo. Claro, ainda faço minha parte. Ainda atravesso na faixa, aproveito a cidade, jogo  o lixo no local correto e tento, na medida do cidadão normal, cooperar com o trânsito. E louvo aqueles que fazem o bem pela cidade. Admiro, quase invejo. Mas minha desesperança é tanta, tamanha, que parece não ter volta. Penso em ter filhos, sim, mas tenho medo de criar alguém que irá conhecer esse local mundano, sujo, que infelizmente é o centro de negócios mais importante do País. Maldita São Paulo.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Teste: Asha 311

Prólogo: Antes de dar início ao texto-teste propriamente dito, uma introdução que se faz necessária: durante os último oito anos da minha vida, uma obrigação ética me impossibilitou de fazer qualquer tipo de testes de celulares – trabalhando para fabricantes, seria impossível manter-me imparcial. Nesse meio tempo, os blogs de tecnologia nasceram e se multiplicaram, enquanto eu vesti camisas de marcas – por um tempo, a Sony Ericsson, por mais tempo, a Nokia. Este é, de fato, o primeiro teste de um celular que farei sem vínculo com nenhuma empresa – pra quem não sabe, já não trabalho para nenhuma fabricante de celulares (e sinto falta, admito). Isso dito, vamos ao teste de fato. 

Nokia Asha 311: isso é o que restou do N9 

Asha 311, o pequeno valente da Nokia

Pedi para testar um produto da Nokia à LVBA, agência de comunicação da marca. E me enviaram o Nokia Asha 311. Um produto que vive naquela categoria limbo: está entre os mais vendidos por ser mais popular, mas nenhum blog de tecnologia se interessa. Afinal, todo mundo quer saber dos Galaxies, Lumias e iPhones, mas o que há de interessante para falar de um telefone intermediário? Muita coisa, na verdade.

Não levou nem 20 minutos para chegar à primeira conclusão do Asha 311: fãs do N9 (como eu), uni-vos: o MeeGo ainda vive. Não, não estou falando de espólios na forma de Jolla, Tizen e afins, mas de algo de dentro da própria Nokia mesmo. De fato, muito da usabilidade do N9 pode ser vista nesta linha de celulares da Nokia. Mas já falarei da interface. Começarei pelo design externo. 

Design
Asha 311 de perfil...
O Asha 311 tem uma ótima pegada. Pequeno, compacto, é um oásis no meio desses telefones com telas cada vez maiores - soa quase nostálgico, se me permitem, ter um celular tão pequeno nos dias atuais. Não que eu seja contra – aliás, eu não compactuo com essa tendência de telas enormes, se me perguntarem. Quebram o tempo todo. Com tela de 3’’, o 311 é um celulares “das antigas” – dá pra levar no bolso sem chamar a atenção. O acabamento, como era de se esperar, é um pouco mais simples. Um plástico brilhante atrás, com uma câmera enorme em tamanho, mas com apenas 3.2 megapixels – confesso que acho pouco para os dias de hoje, mesmo nessa categoria. Na lateral direita, botão de bloqueio da tela e volume – nada de botão físico para a câmera. Na esquerda, nada. Acima, entrada para fone de ouvido 3,5mm, cabo USB no centro e o plug para carregador – ainda o carregador “fininho”, proprietário da Nokia (o telefone também pode ser carregado via USB). Na frente, o Asha traz apenas dois botões, os clássicos verde e vermelho – este último liga e desliga o aparelho. 


...e de costas
Na mão, o Asha 311 tem uma ótima pegada
O Asha 311 é um dos porta-vozes da nova geração dos celulares medianos da Nokia. O velho S40 deu lugar ao “Asha Touch”, um sistema mais moderno e repensado para telefones com tela sensível ao toque. Mas será que ele dá conta do recado? 

Interface 
Ligando o Asha 311, você percebe que, de fato, os S40 cresceram – eu lembro de antigamente, quando você não conseguia usá-los sem chip. Pois o 311 já avisa que o telefone está sem chip e se você quer liga-lo mesmo assim. Muito bom, característica que antigamente só existia em smartphones. Pois é, há alguns meses, a Nokia anunciou que GfK e IDC, duas consultorias famosas, estavam reclassificando os Ashas Touch como smartphones, devido a sua capacidade de baixar apps e tudo mais. Em tese, é apenas uma mudança na nomenclatura, mas isso é suficiente para que o produto seja, de fato, considerado um smartphone? 

Nos primeiros dias de testes, eu diria que não. Com o passar do tempo, percebi que ele faz mais do que um celular comum. Ou seja, está mais para um híbrido. Um smartphone precisa rodar apps simultaneamente e permitir que o usuário alterne entre eles – como fazemos no computador. O 311 não faz isso. Se você tenta sair de um aplicativo aberto, ele pergunta se você quer fechá-lo. Há, sim, alguns aplicativos, especialmente de chat e e-mail, que rodam em segundo plano. Mas isso não é suficiente para chamar esse produto de smartphone. Mas a definição de "smartphone", na verdade, é nebulosa. Eu acredito na que mencionei acima, mas muitas empresas ou especialistas por aí consideram que ter uma loja de aplicativos e funções mais parrudas já bastam para que o produto seja um telefone inteligente. Então, não vamos mexer nesse vespeiro.

O N9 pobrinho
Classificações à parte, o 311 traz um visual bem renovado, como dito. E aqui começam as comparações com o N9. Fã que sou do único MeeGo à venda da Nokia, muitos que podem ler este texto acharão que só estou fazendo essa ligação por questões pessoais. Mas confesso que não.

Quando perguntado sobre o futuro do N9 na ocasião de seu lançamento, o presidente da Nokia Stephen Elop afirmou que "elementos do N9" iriam sobreviver, como o design industrial (que foi parar no Lumia) e a interface. Talvez ele estivesse se referindo a isso. Similaridades? Ambos trazem três telas iniciais e o conceito “swipe”, baseado em gestos – basta deslizar o dedo para direita ou esquerda que você alterna a tela. 

Enquanto no N9 as três telas são de apps abertos, menu clássico e feed + notificações, no 311 a coisa é um pouco diferente. A página de menu clássico está lá, mas a segunda página é exclusiva para o discador de telefone, enquanto a terceira é a mais estranha: é, basicamente, a tela inicial dos velhos Symbian, com relógio, aplicativos e contatos favoritos. Me dá a impressão que a Nokia deixou essa tela momentaneamente - talvez ela suma em versões futuras e dê lugar a uma página de notificações, quando os Ashas estiverem mais evoluídos. Há, ainda, uma tela de bloqueio que mostra as horas e notificações como chamadas perdidas ou mensagens, de novo, no mesmo layout do N9 – deslize-a para a direita ou esquerda e o produto está desbloqueado.

A tela de bloqueio do N9 e do Asha 311
O swipe aplicado no Asha 311...

...e no N9. Quase igual, porém (bem) mais lento no Asha

Recebendo uma chamada no Asha 311

E, por fim, também é possível puxar uma barra de cima pra baixo em qualquer uma das telas iniciais – algo que surgiu no Android e foi adotado pelos últimos Symbians. Nela, você pode ajustar itens como bluetooth e wi-fi, ou ainda ter (mais) atalhos. Curioso, no meu primeiro teste com o 311, ele insistia em me mostrar que havia redes Wi-Fi abertas na área de alcance – te incentivando a se aproveitar da rede vizinha. 

Dia dia
No funcionamento do dia dia, o 311 cumpre praticamente todas as funções que você precisa em um telefone - com um pouco mais. A loja de aplicativos está lá. Tem Foursquare, Twitter e Facebook feitos para o produto. E funcionam direitinho. Há quem considere apps como Instagram essenciais, mas pra mim o mais importante de todos, diria obrigatório, é o WhatsApp. E ele também está disponível na loja. A loja de apps da Nokia para S40, aliás, me surpreendeu pela interface otimizada para telas menores e rapizez na instalação dos apps. Ah sim, Angry Birds também pode ser baixado (mas eu confesso que não aguento mais esse jogo). Como brinde, a Nokia "dá" 40 jogos gratuitos da EA (Electronic Arts), que ficam em um ícone especial. A promoção vale por um tempo determinado, que começa a contar a partir do primeiro acesso à loja. No aparelho que veio pra teste, não foi possível fazer a verificação dos jogos pois o prazo já havia expirado em algum teste anterior.

Se o Asha 311 peca em alguns quesitos quando comparado a smartphones, ele traz a melhor das qualidades que um celular mais simples pode ter: a bateria. Foram vários, vários dias no modo stand by. O aparelho foi mantido ligado no Carnaval inteiro e sobreviveu. Usando o produto em ligações, conexões e tudo mais, ele também não fez nem um pouco feio. Com três dias de uso, a bateria ainda estava de pé. Impressionante - confesso que nem lembrava de uma época em que as baterias dos celulares duravam tanto.

Os mapas da Nokia também estão no 311 - mas use somente em caso de emergência. Sim, estamos falando de um produto de entrada, então tudo deve ser relativizado. Dependendo do caso eu ainda ia preferir consultar o velho Guia de ruas em papel do que o Mapas para S40. Lento, quase irritante. Mas, de novo, se você não tiver outra opção, ele pode ser bem útil para traçar rotas, achar locais e  salvar favoritos.

Redes Sociais
Como falado acima, o produto conta com diversos apps oficiais das principais redes feitos com exclusividade. Quer dizer, o Foursquare, Twitter e Facebook estão lá. O produto também traz um bizarro ícone do Orkut por lá - tudo bem que o telefone é popular, mas o povo ainda acessa isso?

Se quiser utilizar suas redes sociais no Asha 311, opte pelos apps individuais. Porque a Nokia também oferece o Social, um agregador de redes que, supostamente, facilita sua vida mostrando todos seus feeds em apenas um local. Fuja disso. O app é lento e tem interface ruim - aliás, um legado que vem desde os tempos de N8.

Câmera
A câmera do Asha 311, de 3.2 megapixels, é razoável. Também fiz um vídeo, mas não o postarei aqui. Vejam uma foto tirada com o Asha 311 e outra com o Lumia 800, com câmera de 8 megapixels. Lógico que essa comparação é injusta, mas serve apenas para propósitos de referência.

Foto tirada com o Asha 311

Foto tirada com o Lumia 800
Como viram, a foto do Asha 311 não ficou ruim. Mas, se você curte fotografar com um celular, o Asha 311 não é o mais indicado, quem sabe até em sua categoria. Ah, e ele não tem flash.

Teclado
Nos primeiros modelos de Symbian touch (N97, em especial), uma das grandes críticas ao produto ia ao teclado virtual. Pois ele não possuía layouts QWERTY na vertical, apenas o velho T9 em formato digital. A Nokia corrigiu isso com o tempo e o layout do teclado do Asha 311 foi uma grata surpresa. Exige, sim, uma curva de aprendizado. As letras são pequenas e, à primeira vista, você provavelmente pensará que jamais irá conseguir digitar naquilo. Mas consegue. Com um touch capacitivo bem resolvido, o Asha 311 permite uma boa digitação com um relativo conforto.

O teclado do Asha 311 ao lado do N9: assim como o irmão mais velho bastardo, o teclado também pode ser recolhido com um swipe pra baixo

Internet
Navegar na internet no Asha 311 é bom e ruim. O navegador criado para o sistema, que comprime as páginas, deixa o carregamento das páginas mais rápidos. Mas a tela pequena é um problema. Também não existe o clássico pinch to zoom, o que faz qualquer um ficar "pinçando" a tela à toa. Somente após algumas tentativas você aprende que esse gesto não serve pra nada. A conexão Wi-Fi ajuda bastante na rapidez, apesar do produto também contar com conexão 3G. Para quem não curtir o navegador nativo, a loja conta com o Opera Mobile, sempre uma boa alternativa (eu só usava ele no meu velho C7).

Resumo
Na loja oficial da Nokia, o Asha 311 custa R$ 399. No Submarino, achei por 349. Aí muitos blogueiros e jornalistas por aí pensam: "esse produto é lento e limitado". Bem, meus amigos, por R$349 eu digo que está ótimo. Você leva um N9-wanna-be que pode até ser smartphone de vez em quando, com mapas, Wi-Fi, 3G, 40 jogos (pra baixar) de graça, câmera razoável, vídeo, internet (relativamente) rápida, um touch honesto e loja de aplicativos com milhares de itens. Nesta faixa de preço, a briga com os Androids de entrada é dura. Nunca testei um Android de entrada, então fica difícil a comparação. Basta dizer que o 311 foi aprovado no meu.

É isso, espero que tenham gostado! Quem sabe um dia eu volto com um novo telefone - se me empolgar, quem sabe eu abro um blog só pra isso. Tanta gente faz por aí...

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Estación Sur

Não é Buenos Aires, mas quebra o galho
Faz tempo que não escrevo sobre experiência gastronômicas aqui no blog. Então, provavelmente inspirado pelo belo blog Comidas já Comidas, da amiga Luciana Ferraz, resolvi reativar a seção - mas sem o menor propósito de concorrência ou periodicidade, afinal, este blog segue sendo um diário, mal atualizado, mal acessado e sem pretensões algumas de ser mais do que é (essa pretensão até já existiu no passado, mas isso é outra história).

Dada a explicação, hoje fui com amigos ao Estación Sur, um restaurante argentino no bairro do Morumbi. Ele é novo, abriu há menos de seis meses no bairro, mas que já tem, há mais de dez anos, uma unidade no elegante bairro dos Jardins. Apesar de localizado no Morumbi, não se engane. A região não é das melhores. Ele fica em uma rua semi-residencial, com oficinas mecânicas ao lado, uma praça mal conservada na frente e uma via de alto movimento. É daqueles que você olha e pensa "'não vai pegar". Talvez por isso, resolvemos ir logo, antes que feche (maldade).

A chegada já não foi convidativa. Há poucos espaços para estacionar e o manobrista cobra a bagatela de 15 reais para deixar o carro. Lógico, fomos atrás de uma vaga em uma rua próxima. Resolvido o primeiro dilema, fomos ao próximo: havia um vegetariano entre nós. Checamos se serviam ali pratos sem carne. Sim, servem.

Aconchegante, o Estación Sur contrasta com o restante da rua, como citado. Com cara de novo, bem arrumado, pintado e projetado pelo arquiteto Delfor Brion, capricha no interior, que inclui salas com ambientação portenha e itens trazidos de Buenos Aires. Mas, divide o quarteirão com mecânicos e prédios descompromissados. É difícil passar na rua e não estranhar algo tão bonito perto de imóveis velhos. Ao entrar, vê-se que o trabalho de decoração foi bem montado. Há um espaço externo, para fumantes (cadê a fiscalização?), um interno sem ar condicionado e um terceiro salão, climatizado, com uma TV. Em todas as paredes, como era de se esperar, menções à terra de Maradona. Além do próprio, fotos de outras personalidades do país.

Quadro ressaltando a tradicional humidade argentina - foto de Rubia Pria

Escolhemos o salão climatizado. Cardápio à mão, eu já tinha sido avisado: o local não é barato. E não é mesmo. Os pratos individuais saem na faixa de 60, 70 reais. Juro. Felizmente, durante a semana existe a opção de saborear um prato executivo, que varia entre carnes como baby beef, frango e chorizo, além de massas como ravióli e gnocchi. Esses pratos executivos acompanham salada, batata frita (com exceção das massas) e uma sobremesa, e o preço deles gira em torno de 35 reais.

Começando pela salada: fraca. Bem fraca. Alface, tomate e cebola apenas, todos jogados em um pote, sem tempero. Nem comi inteira. Só para cortar a salada, foi um martírio. Para tempero, havia apenas azeite, vinagre e sal. Uma decepção. Eu faria algo (bem) melhor em casa com os mesmos ingredientes.


O prato principal demorou a chegar. Meus amigos pediram truta e gnocchi. Eu, em um restaurante argentino, não poderia pedir algo que não fosse carne. E fui de baby beef. Interessante: quando pedi ao garçom a carne mal passada, ele me mostrou fotos de vários tipos de ponto de carne, para que eu entendesse bem como era a mal passada. Nunca tinha visto isso.

O prato chegou e eu gostei. No que diz respeito ao principal, a carne, estava muito boa, mal passada, tenra, suculenta e com pouca gordura. A batata frita estava boa, mas não era nada demais - me lembrou, na verdade, as batatas fritas congeladas de pacote. Infelizmente, a fome foi tamanha que esqueci de tirar a foto na hora que o prato chegou. Mas antes tarde do que mais tarde. No caso de você estar perguntando o que está na parte de baixo do prato, é meia truta que eu dividi com uma "truta" minha (nossa, essa foi péssima).

Por fim, a sobremesa. Ah, a sobremesa. Como não lembrar das inúmeras viagens a Buenos Aires e dos passeios com helados pelo Puerto Madero? Ou da época de infância, quando, a duras penas, conseguíamos um raro alfajor da Havana? Nossa, como aqueles alfajores eram deliciosos, únicos, raros. Quem mais aqui achou que eles simplesmente perderam a graça com a chegada ao Brasil? De qualquer forma, pedi mesmo um doce de leite na panqueca, que estava bom, muito bom. Não comi o doce de leite todo. Uma pessoa na mesa jura que era o Salamandra, que é um bom doce de leite. Eu não consegui dizer se é ou não, mas certamente não era brasileiro. Valeu a pena.

A brincadeira toda, junto com uma água com gás, saiu 42 reais por pessoa. Caro? Sim. Mas, em uma cidade onde tudo é caro e já estamos achando normal pagar valores absurdos, até que vá lá. Só que, se você for no fim de semana, prepare o bolso, pois os almoços executivos não serão oferecidos. Ah, aceita VR.

Abaixo, mais algumas fotos do restaurante que, certamente, não é o melhor argentino da cidade, mas também não é o pior. E, pra quem gosta de lugares afastados da bagunça, esse é ideal. Adelante (sério, Luís, esse foi seu final de post? Horrível)!

Estación Sur











terça-feira, 9 de outubro de 2012

Elvis in Concert - show em São Paulo

Elvis In Concert: você jura que ele está ali, com o resto da banda
Após meses de espera, finalmente chegou o dia do primeiro show de Elvis e sua banda em São Paulo. Meses? Décadas, na verdade. Afinal de contas, Elvis nunca chegou nem perto de tocar no Brasil. Na verdade, nunca saiu dos Estados Unidos com sua banda.

Você pode ter reparado que o parágrafo acima inteiro dá a impressão que Presley está realmente entre o mundo dos vivos - mas é quase isso. O show Elvis Presley In Concert, que chegou ao Brasil com passagens por São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, é único, indescritível, uma viagem no tempo muito bem projetada, executada e absolutamente surreal. Mas, acima de tudo, é uma maravilha para quem gosta de música.

Lembro-me de ver uma declaração do baterista de Elvis, Ronnie Tut, já no alto de seus 73 anos, quando o show foi promovido, no começo deste ano: "É diferente de tocar ao vivo. Você sabe que, se errar, o Elvis não irá parar por você". Exatamente. Por isso, um show tão singular, em que o ensaio ganha proporções imensas e fundamentais para que tudo corra bem. E corre. Ao longo do show inteiro, apenas em duas músicas foi possível notar um pequeno, minúsculo delay entre Elvis e banda. Nada que comprometesse a qualidade - provavelmente, a maioria do público sequer notou.

Elvis In Concert, para quem chegou a esse post do nada, é o nome da turnê que reúne parte da banda original de Presley durante a década de 1970. Como funciona? Apresentações em vídeo de Elvis foram remasterizadas. Todo o áudio externo delas foi isolado, deixando apenas a voz do artista presente. Essa voz, em vídeo, é acompanhada ao vivo por banda e orquestra formada por alguns membros TCB Band, como era chamado o grupo que acompanhava Elvis entre 1969 e julho de 1977.

O show foi no ginásio do Ibirapuera. Não é a melhor casa de shows do Brasil, mas foi bem melhor do que eu esperava. Há uma demora considerável para o início do concerto. Marcado para 21h, a plateia ainda tem de ouvir um apresentador mambembe falando sobre patrocinadores como se fosse a coisa mais natural do mundo. Mas, após uma certa espera, há o início: um vídeo no melhor estilo Google Maps mostra a Terra, enquanto a câmera vai se aproximando de São Paulo, até chegar ao Ginásio do Ibirapuera. Então, uma enorme assinatura de Elvis domina a tela. Ao fundo, começa a tocar duas músicas de entrada: inicialmente, uma versão genérica de Also Spracht Zarathustra, que foi usada no filme Elvis On Tour. Imagens do Rei no camarim, se dirigindo ao palco, levam à plateia ao delírio. Eu fiquei emocionado. É difícil não achar que o cantor está, realmente, logo ali, pronto para entrar em cena. No meio do universo elvístico, você de repente acha que, ou voltou no tempo, ou todos nós envelhecemos, menos Elvis.

Abertura do show

Então, a versão correta do tema de 2001: Uma Odisséia no Espaço começa, dando mais nervosismo a todos. O show está começando! Terminada a introdução, a clássica virada de bateria de Ronnie Tut, claro, um pouco mais cansada que as feitas em 1972, mas ainda vibrantes. A cortina ainda está fechada, enquanto você vê a silhueta de Elvis, em tamanho real, andando por trás dela, de um lado para o outro do palco, agradecendo aos presentes. Incrível. Mágico. Quase assustador de tão belo. Lágrimas de novo.

A cortina, então, cai, e subitamente você lembra que não, o Elvis não está ali. Mas não há tempo para decepções. Elvis está em um imenso telão central, acompanhado por mais duas telas menores que focam sempre na banda. See See Rider, na versão do show de 1973 no Havaí, é a escolhida para a abertura. E a banda está mandando muito bem. Não só ela, mas uma orquestra inteira, coordenada pelo maestro Joe Guercio (também da formação de Elvis nos anos 1970), dá o peso suficiente para que você curta cada segundo. Vem o primeiro solo do guitarrista James Burton e você começa a pensar que essa será uma noite incrível. É curioso ver o mesmo James Burton, jovem e ágil ao lado de Elvis no telão central, se misturando com o Burton atual, ainda arrepiando na guitarra, mas já com os sinais da idade. O tempo é uma coisa doida.

Ao meu lado, pessoas de todas as idades. Ginásio lotado, o Ibirapuera parecia com os estádios e ginásios em que Elvis costumava tocar no meio dos anos 1970. Na minha frente, uma garota nascida em 1990 acompanhada da avó gritava como nunca. Veio de vestido longo, penteado feito e uma corrente com o logo TCB ("Taking Care of Business", o mote de Elvis) no pescoço. "Minha avó trouxe de Memphis para mim", diz, orgulhosa. Atrás de mim, outra fã não conseguia se controlar. "Gostoso! Elvis I love you! Tesão!", gritava. Fãs com topetes, pessoas bem arrumadas em vestidos longos, pessoas de todos os cantos do Brasil e países vizinhos: Elvis tocava para a América Latina.

As primeiras músicas do show foram essencialmente baseadas no  Aloha From Hawaii, apresentação que Presley fez via satélite em 1973. Depois de See See Rider, uma versão estupenda de Burning Love incendiou a plateia, que cantava, gritava incansavelmente e aplaudia efusivamente ao fim de cada faixa. Welcome To My World e Steamroller Blues vieram em seguida.

Primeiras músicas foram retiradas do "Aloha From Hawaii"
Ao longo de todo o show, impressionou a perfeita sincronia entre Elvis e banda - tão perfeita como na época em que tocavam juntos. O estilo do Rei do Rock sempre foi muito visual. Praticante de karatê, ao fim de cada música ele performava gestos e golpes no ar para encerrar a música junto com o último rufar da bateria. E assim foi ao longo de toda a noite. Da banda original de Elvis, não estavam todos ali. Além dos que já faleceram, claro, nem todos os vivos puderam - ou quiseram - vir. James Burton, o guitarrista que me deu uma palheta em 2008, Ronnie Tut, o baterista que inovou ao usar bumbo duplo - o que ainda faz -, Glen Hardin e seu piano sempre essencial, além de membros dos backin vocals Sweet Inspirations e The Imperials. Alguns notadamente velhinhos - uma das cantoras teve de ficar sentada o show todo - e outros muito bem dispostos. A banda é animada e reage muito bem ao calor do público - que foi à loucura do início ao fim.

Aos poucos, o set list foi deixando o Havaí e parou em Las Vegas. Apresentações filmadas para o That's The Way It Is, de 1970, formaram boa parte do que viria depois. Versões de clássicos dos anos 1950, como Don't Be Cruel, Heartbreak Hotel e Are You Lonesome Tonight? (na famosa versão sentada com guitarra) emocionaram a todos. Love Me Tender, recheada por beijos das mulheres que iam até a boca do palco (e de Elvis), provavelmente deixaram as moças no Ibirapuera com inveja por não estarem na gravação original, mais de 40 anos atrás.

Confesso que tentei anotar ou memorizar todas as músicas do show, mas não deu. Um típico show de Presley naquele período tinha 24 músicas, mas essa teve muito mais. Talvez por isso, houve um intervalo no meio do show - algo inusitado para o formato, mas temos de lembrar que ninguém ali no palco é criança mais. A primeira parte do concerto terminou com If I Can Dream, música que, aliás, nunca foi tocada pela TCB Band originalmente (ela fazia parte do 68 Comeback Special).

Elvis cantando "If I Can Dream"
A segunda parte começou com a intimista versão de Trouble/Guitar Man do especial de 68, mostrando Elvis no auge, em close no telão. O lado gospel então ganhou força - o público geral não sabe, mas os dois prêmio Grammy que Elvis ganhou na carreira foram por interpretações religiosas. Elvis Presley cresceu cantando gospel, e esse foi um lado de sua vida que ele jamais abandonou, inclusive levando aos palcos. Em um dos momentos mais emocionantes da noite, o coral The Imperials foi à frente para cantar Sweet, Sweet Spirit. O mais curioso é que isso aconteceu também em um show - em 1972, no documentário Elvis On Tour, o cantor pede a mesma coisa. Ou seja, enquanto o coral cantava ao vivo, Elvis permanecia em silêncio, no telão, cantando para si mesmo e apreciando a música como todos nós. Mágico.

Se Sweet, Sweet Spirit não arrancou lágrimas de todos, caberia à próxima, How Great Thou Art, fazer isso. Uma versão soberba, de arrepiar, com Elvis, banda e orquestra arrancando o máximo, com um som de preencheu todo o ginásio e certamente impactou muita gente.

Ainda teve espaço para muitos outros sucessos. Polk Salad Annie me lembrou o pedido que fiz a James Burton. You've Lost That Lovin' Feelin' foi cantada em coro por quase todos. Suspicious Minds foi outro clássico que, quando começou, empolgou tanto que fez com que todos se levantassem. My Way e What Now My Love mostraram, mais uma vez, o poderio vocal do cantor - destaque também para os arranjos da orquestra, incrivelmente fieis aos originais.

Polk Salad Annie

An American Trilogy contou com uma participação mais forte do Sweet Inspirations, o que, mais uma vez, fez a plateia delirar de emoção. Can't Help Falling In Love, como deveria ser, encerrou a apresentação, com as letras no telão para todos cantarem juntos. Poucos minutos depois, veio o folclórico anúncio: "Elvis has left the building!". Terminava ali uma experiência musical maravilhosa.

Faltou alguma música? Eu teria incluído Unchained Melody, de 1977. Pra quem não sabe, Elvis fez mais um especial de TV que poderia ser aproveitado no show. Gravado dois meses antes de sua morte, provavelmente a Elvis Presley Enterprise achou por bem não expor Elvis em seu pior momento físico - ainda que com a voz mais poderosa que já teve.

Resumo
É difícil avaliar um show como esse, que eu espero há tantos e tantos anos, e separar o profissional do pessoal. Mas, como este é, justamente, um blog pessoal e não uma reportagem para uma revista, dane-se: o show é espetacular. Qualquer um que goste de rock, blues, gospel e afins deve assistir a um show desses. Sim, o Elvis não está lá, mas o calibre dos músicos somente já é mais que suficiente para uma noite memorável.

Ainda há ingressos disponíveis. Quem quiser, pode ir atrás em www.ingressorapido.com.br ou no site do Via Funchal.

Tentei remontar o set list da noite, mais ou menos na ordem que me lembro. Se alguém tiver o set correto ou lembrar de alguma música faltante, agradeço.

Os vídeos/áudios foram retirados de:

- 68 Comeback Special: especial de TV exibido em dezembro de 1968
- That's The Way It Is: filme-documentário com shows de Elvis em agosto de 1970
- Elvis On Tour: filme-documentário mostrando shows de Elvis no início de 1972)
- Aloha From Hawaii: show transmitido via satélite em 14 de janeiro de 1973)
- Elvis In Concert: especial de TV gravado em junho de 1977


1. Also Spracht Zarathustra (Theme from 2001: Space Oddissey)
2. See See Rider (Aloha)
3. Burning Love (Aloha)
4. Welcome To My World (Aloha)
5. Steamroller Blues (Aloha)
6. You Gave Me A Mountain (Aloha)
7. That's All Right (That's The Way It Is)
8. Don't Cry Daddy (That's The Way It Is)
9. Introductions By Elvis / Johnny B. Goode (Aloha, com improvisações)
10. Heartbreak Hotel (That's The Way It Is)
11. Don't Be Cruel (That's The Way It Is)
12. Blue Suede Shoes (That's The Way It Is)
13. Are You Lonesome Tonight? (That's The Way It Is)
14. Love Me Tender (That's The Way It Is)
15. Hound Dog (That's The Way It Is)
16. If I Can Dream (68 Comeback)


Intermission

17. Trouble / Guitar Man (68 Comeback)
18. Polk Salad Annie (That's The Way It Is, com arranjos pós-74)

19. You've Lost That Lovin' Feelin' (That's The Way It Is)
20. Sweet, Sweet Spirit (The Imperials) (Elvis On Tour)
21. How Great Thou Art (Elvis On Tour, com vocal de Elvis In Concert, 1977)
22. The Wonder Of You (That's The Way It Is)
23. My Way (Aloha)
24. I Got A Woman (That's The Way It Is)
25. What Now My Love (Aloha)
26. I'll Remember You (Aloha)
27. Funny How Time Slips Away (Elvis On Tour, com Elvis pedindo para as luzes se acenderem e a plateia sendo exibida)
28. Big Hunk O' Love (Aloha)
29. An American Trilogy (Aloha)
30. In The Ghetto (That's The Way It Is)
31. Suspicious Minds (That's The Way It Is)
32. Can't Help Falling In Love (Aloha)

Revivendo as músicas que inspiraram uma geração

domingo, 7 de outubro de 2012

Diário dos Andes - Parte 1

Zooógico de Santiago

Como de costume, não poderia deixar de escrever sobre minha última peripécia internacional. Desta vez, o local escolhido foi o Chile, que se dividiu em Santiago e seus arredores, além do deserto do Atacama, com uma breve passagem pela Bolívia também.

A ideia do post é retratar um pouco alguns locais interessantes deste país que, confesso, me surpreendeu bastante. Sim, nas aulas de geografia que temos quando criança, pensamos no Chile apenas como aquela "tripa" comprida e fina que percorre parte da América do Sul. Bem, essa tripa é bem comprida, na verdade. Sim, o Chile ainda é bem pequeno para se percorrer "horizontalmente" no mapa. De Santiago à praia, por exemplo, não leva nem duas horas. Mas há bastante para se conhecer por lá.

Bom, a viagem se dividiu da seguinte maneira:

Parte  - Santiago, duração de sete dias
Parte 2 - Atacama, duração de seis dias
Parte 3 - Santiago de novo, três dias

Como são muitas coisas para compartilhar, vou até certo ponto aqui, depois paro e continuo em um novo post.

Começo dizendo que o Chile nunca me atraiu. Nunca foi um país que desejei visitar. Mas, por favorecimentos interessantes (parentes que por lá vivem e milhas), pareceu interessante. Em Santiago, tivemos estadia gratuita e confortável, o que barateou e muito a viagem.

Devo dizer que Santiago foi uma grata surpresa. É enorme! Não esperava uma cidade com tanta estrutura e carros. Sim, carros. Se você é de São Paulo como eu, irá se acostumar rapidamente com o trânsito de Santiago. A diferença é que, por lá, ele acontece quase que exclusivamente nos horários de rush, enquanto que em Sampa toda hora e dia pode ter trânsito.

De uma maneira geral, a cidade parece ter requintes europeus, mas com menos partes históricas e monumentos. As avenidas também não são largas e planejadas, mas há viadutos, alças de acessos e túneis enormes que atravessam longos trechos de Santiago.

Sim, há a poluição. Santiago é mundialmente conhecida por sua poluição de níveis alarmantes. Não apenas por culpa deles, mas pela topografia da cidade. Ela é inteiramente cercada pelas montanhas dos famosos Andes. E não é  brincadeira. A barreira física realmente impede que o ar circule. Há um parque lá, bem no alto, em que se pode ver a estátua de uma virgem e ter uma boa visão da cidade. Ali, fica claro como a poluição paira sobre a população de Santiago:

Mancha: em Santiago, é proibido usar lareira por conta da poluição

Bem, de novo, pra quem é de São Paulo, não é nada que nos impeça de viver normalmente. Sim, o ar fica um pouco mais seco e árido, somada à altitude. Mas em 1 dia você já acha que viveu lá a vida inteira.

Clima
Santiago tem um clima bem agradável dependendo da época do ano. No auge do inverno mais rigoroso, pode até nevar, mas você sobrevive. Fui no meio de setembro. Ainda estava frio, mas um bom casaco, um gorro e luvas eventuais já ajudam.

O dinheiro chileno é meio confuso. Não vale tanto como o nosso, mas também não vale pouco. A moeda lá é o peso chileno. Tudo vale muito. Isso porque os números são gigantes. Qualquer coisinha custa 3 mil pesos chilenos, o que lembra os mais antigos (eu incluso) do período pré-real no Brasil, quando um refrigerante custava 3.500 cruzeiros. É mais ou menos a mesma coisa, só que sem a inflação. E para converter esse valor em reais? Em linhas gerais, 1000 pesos chilenos valem 2 dólares, que valem mais ou menos 4 reais. Ou seja, a regra é cortar os zeros e multiplicar por 4 para ter uma noção.

Santiago é bastante cara. Mas não tão cara quanto o Brasil. É preciso garimpar. Roupas, algumas valem a pena. Peças de cozinha e banheiro valem muito. Bebidas, mais ainda. Vodkas de qualidade custam algo como 25 reais no supermercado.

Roteiro
Durante a semana em Santiago, eis o que fizemos, mais ou menos:

Com uma vista dessas, qualquer refeição fica boa
Isla Negra - A mais ou menos duas horas de Santiago, na praia. É onde fica a casa de Pablo Neruda. Na verdade uma das três casas, já que tem outra em Valparaíso e a de Santiago. Dizem, no entanto, que a de Isla Negra é a mais legal. A viagem foi incrível. Almoçamos no próprio restaurante que fica na casa, com uma maravilhosa vista para a praia. Comida boa, ótimo atendimento e ambiente inesquecível. Um dos melhores momentos de toda a viagem.


Traga seu churrasco, bebidas e nós damos a estrutura
Santuario de la Naturaleza - Uma grata surpresa. Um parque no meio de uma reserva ambiental, esse local na beira de um riacho possui dezenas de churrasqueiras erguidas em tijolos, além de mesas e bancos. A ideia é ir com seu carro levando comidas e mantimentos para passar um dia maravilhoso por lá. Não é longe da cidade, mas o suficiente para descansar ainda mais. Há uma cobrança pequena para entrada no parque, totalmente aceitável.

Valle Nevado - Sim, não dá pra ir a Santiago e não dizer que esquiou né? Bem, pelo menos isso foi o que tentamos. Eu nunca tinha visto neve, que dirá ter um esquí no pé. Durante o dia que passei na neve, fiquei impressionado e revoltado: impressionado com o talento de algumas crianças. Revoltado com o esporte em si: as montanhas de neve devem ser apreciadas apenas. Não sei quem foi que achou que aquilo lá era um esporte.

Tudo é incômodo. Além do óbvio frio, há o calor por usar tanta roupa. Ceroulas, calças, blusas, camisetas, tudo isso vai por baixo de uma grossa roupa para esquiar. Junta-se a isso uma bota que também poderia ser chamada de tortura: uma peça pesada, que deixa seu pé absolutamente imóvel ("precisa ser assim ou você pode quebrar o pé"). Se esquiar com a bota já é ruim, andar com ela é uma tarefa hercúlea. Descer uma escada lembra aquela clássica cena do robô gigante em Robocop tentando descer uma escada.

Valle Nevado: sim, é lindo. Mas como cansa...

Claro que tudo não acaba por aí. Você ainda precisa carregar aquela merda de esqui por onde anda. Sim, pq não é o dia inteiro que você estará com ele nos pés. Ah, carregue também aqueles dois pauzinhos que ficam caindo o tempo todo. Que saco.

Esquiar é difícil. Com apenas 5 ou 6 horas de diversão, nem tentei fazer aulas. Foi um fiasco. Um colega me ensinou rapidamente como descer. Mas não ensinou como levantar  no meio da descida. Resultado: na primeira pirambeira, caí. Como não conseguia levantar, desci a rampa inteira à pé mesmo.

Importante: leve água, protetor solar e um bom óculos escuros (resistente, claro). A neve queima bastante. Ah, outra coisa: o caminho para chegar ao Valle Nevado é tortuoso. 35 curvas numeradas seguidas de mais 18 numeradas (não me pergunte pq eles não somaram). Todas as curvas são íngremes, apertadas e com um barranco do lado. Controle-se para não ficar enjoado durante o trajeto. Mas fique tranquilo pq a volta é ainda pior: afinal, é descida - e com o barranco (e a fria morte) a metros. Se estiver dirigindo, faça-o com muito cuidado.

Por enquanto é isso. A qualquer momento volto com mais um diário dos Andes! Espero que curtam!